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Saudades da Indonésia e da Selva de G-Land



André Parente nasceu no Porto, em 1974, e licenciou-se em Administração e Gestão de Empresas, em 1998. Começou a viajar desde muito cedo com a mãe, que trabalhava numa companhia de aviação, e rapidamente apanhou o gosto e vício das viagens. Em 2004, começa a viajar sozinho nas férias e, em 2007, deixa a empresa onde trabalhava há quase 8 anos para fazer uma viagem à volta do mundo, que relata em directo num blogue convidado do Jornal Público. No regresso, lança o site de informação e dicas de viagem Tempo de Viajar www.tempodeviajar.com e intensifica a sua aprendizagem sobre viagens, turismo e webmarketing, áreas que começa a trabalhar com projectos próprios e como freelancer.




Saudades da Indonésia e da Selva de G-Land

G-land, ou Grajagan, é um lugar situado num extremo da floresta tropical do Parque Nacional de Alas Purwo, na ilha de Java, Indonésia. Para lá chegar, é preciso ir de barco ou conduzir durante várias horas pelo meio de caminhos de terra e areia no meio da selva.

 

 

É um local isolado, uma zona crítica no que respeita ao ataque de mosquitos transmissores de malária e, relatos desde há muitos anos atrás, falam de rugidos de tigres a meio da noite e de presença de lagartos gigantes. É o palco de uma das, indiscutivelmente, melhores ondas do mundo.

 

No final da terceira onda, quando remo de volta para o pico, sinto qualquer coisa a bater-me na prancha. Num susto rápido, levanto os pés e bato com os braços na água.

 

Às vezes, particularmente quando estou em sítios que não conheço bem, assusto-me até com a cordinha que se enrola no pé ou com pequenas algas que se colam ao corpo. Outras vezes, quando vejo um set grande a entrar desde lá de fora, imagino que pode ser um tsunami.

 

Não é uma hipótese totalmente disparatada, estando aqui na Indonésia.


Já sentado na prancha, meto a cabeça dentro de água e abro os olhos para tentar ver alguma coisa. Nada, “tubarão não deve ser”.

Nessa manhã, tinha sido picado por uma alforreca.

 

Um espanhol, que acabara de conhecer, viu-me com o pé fora de água.

- Que paso? Reef?

- Não. Acho que alguma coisa me mordeu. Sinto a picar muito.

- Medusa (ler com sotaque castelhano)! Jellyfish, you now?

- Pois, se calhar foi. E isto passa rápido?

- Si, un o dos dias. Bueno, depende da la medusa!

E continua e remar, a rir-se, em direcção ao outside.

 


E agora isto… seja lá o que for. Mas, volta e meia, lá sinto a bater por baixo da prancha “toc, toc”. De repente dá-me o click. Viro a prancha ao contrário e (agora parece-me óbvio) tenho um quilhas solta, quase a sair.


É o meu último dia em G-land.

 

É a última surfada do dia e, quase de certeza, a última surfada na Indonésia, que será também a última antes do jejum de trinta e muitos dias que se aproxima, enquanto viajo pelo sudoeste asiático.

 

Apesar do cansaço, estava com vontade de aproveitar a luz do dia até à última e, na verdade, a quilha solta não atrapalha assim tanto. O pior é mesmo perdê-la, se continuar a surfar e acabar por se soltar.


Mas depois vem-me mais uma ideia daquelas estranhas à cabeça.

 

E se isto tudo é um sinal? Faço contas de cabeça: no total, já levo 7 dias de G-land; isso é qualquer coisa como 10 ou 12 surfadas; mais ou menos 50 ou 60 ondas boas.

 

E se “alguém” me está a querer dizer que já tenho a minha conta e que, a partir de agora, só vai piorar? Primeiro a medusa. Agora a quilha a soltar-se.

 

Serão avisos? O que é que se segue? Um espalho no reef? O tal tsunami imaginário?


Olho à minha volta.

 

De um lado, vejo o grupo de idiotas que chegou ontem, e com quem tive a primeira discussão dentro de água em 6 meses de viagem, a disputar o pico como se fosse o último prato de comida que os seus pobres espíritos têm para se alimentar nos próximos dias.

 

Do outro, vejo a tranquilidade do recife seco com a selva cerrada por trás, onde apenas se destaca a torre de observação. Sim, já tive a minha conta.

 

 

Despeço-me do Bob, um Havaiano com quem surfei várias vezes na mesma secção durante esta semana e com quem trocava incentivos e alegrias depois de uma ou outra onda mais intensa.

 

Apanho uma última onda para sair e fico a ver os outros até o sol se pôr.


Este pode não ser o mais bem arranjado dos três surf-camps que existem (é o mais barato), mas dizem que a comida é a melhor e, tenho a certeza, não fica atrás dos outros em termos de pessoas.

 

Ao fim do primeiro dia, todo o staff sabe o nome dos 20-30 hóspedes, um por um, e atendem-nos com uma atenção e um carinho que nos faz sentir entre família, aqui isolados numa ponta da selva.


No dia seguinte, antes de entrar para a carrinha que faz a penosa viagem de regresso a Bali, um dos empregados põe-me a mão no ombro, como quem dá um abraço de despedida, e pergunta-me com uma cara triste e num português quase perfeito:

- André… saudade?

 



Texto e Fotos de André Parente

 

Mais relatos, fotos e dicas de viagem em www.tempodeviajar.com

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